1 de julho de 2013

Entrevista com a TNPets!

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Esta foi uma entrevista realizada por um grupo de alunos do primeiro ano do curso de Medicina Veterinária da Universidade Plínio Leite, em Niteroi, Rio de Janeiro. Achei super bacana o interesse dos alunos em conhecer a área de Nutrição Clínica e fiquei muito feliz de contribuir de alguma forma. Desejo muito sucesso à vocês!

Vejam a entrevista na integra:

Qual é sua formação, onde se formou e em que ano?

Minha formação profissional é em Medicina Veterinária pela Universidade Castelo Branco em 2007, com pós graduação em curso em Homeopatia Veterinária (IHB), certificação em Nutrição de Carnívoros e Naturopatia (ACAN) e membro da American Academy of Veterinary Nutrition (AAVN).

Como surgiu a ideia da nutrição natural?

Em 2008, recém formada, pela primeira vez li um comentário questionando o dogma de que o alimento industrializado era sempre a melhor opção para cães e gatos e relacionando a alimentação processada com o aumento de casos de doenças crônicas e degenerativas em animais cada vez mais jovens. Na época, este comentário me fez refletir e pesquisar mais a fundo sobre os componentes da ração, sobre as necessidades nutricionais dos animais carnívoros e sobre nutrição através de alimentos frescos. Descobri que a corrente da nutrição natural, ainda quase inexistente no Brasil, já vinha sendo praticada crescentemente e com excelentes resultados no exterior, especialmente no Estados Unidos e Canada, países da Europa e Austrália. Por este motivo decidi me atualizar e me aprimorar em Medicina Preventiva e Nutrição Clínica e ajudar mais pessoas que também buscavam por esta alternativa para seus animais de estimação.

As rações extremamente específicas, como a para gato Persa. São indicadas ou é mais marketing?

Existem casos e casos. A indústria tem que fazer marketing para vender e sobreviver, mas gatos persa especificamente podem se beneficiar de um alimento com nutrientes que melhoram a qualidade dos pelos assim como fontes de protetores articulares, comum em rações especificas para cães de grande porte, por exemplo, então não faz sentido um alimento mais rico neste ou em componentes quando são nutrientes que todos podem aproveitar. Mas mesmo nestes casos, é possível formular uma dieta natural que supra estas necessidades com alimentos frescos.

Qual a sua opinião sobre alimentação caseira?

As rações vieram para solucionar dois problemas: trazer praticidade ao proprietário na alimentação e substituir  a alimentação desbalanceada obtida por restos de comida dados aos animais, e ela cumpre este papel muito bem. O que defendo é que, apesar de mais prática e superior a restos de comida, a ração industrializada e processada não pode nunca ser superior a uma alimentação natural, fresca e balanceada.

Acredito então que a alimentação caseira balanceada é a opção de alimentação mais saudável para qualquer animal. O alimento fresco, quando adequadamente formulado, supre as necessidades nutricionais com nutrientes naturais e altamente biodisponíveis, oferece segurança uma vez que é você quem escolhe a qualidade de cada ingrediente, é isento de aditivos químicos, pode ser mais econômico, oferece flexibilidade para atender a animais com necessidades especiais, é mais úmido aumentando a ingestão hídrica, alem de proporcionar mais prazer nas horas das refeições. Não estou entrando aqui nos benefícios para enfermidades específicas, como a redução do risco de diabetes, alergias alimentares e doença do trato urinário.

O que é mais recomendado? Suplementar animais com alimentos frescos ou fazer uso de concentrados nas refeições?

Pense por você, o que você prefere, comer uma alimentação balanceada com legumes, verduras, proteínas de qualidade e gorduras essenciais ou comer junk food, biscoito e miojo depois tomar um multivitamínico? Agora, se estamos falando de suplementar animais que estejam se alimentando de ração para dar uma “reforçada”, a situação é um pouco diferente. Não recomendo a suplementação de rações Premium e super Premium uma vez que estas já possuem em sua fórmula premix vitamínico-mineral em quantidades adequadas. Suplementação extra com vitaminas, minerais e alimentos frescos podem ser necessários em casos específicos, mas não devem ser feitos sem critério e variam de caso a caso.

Qual a sua opinião sobre alimentação de animais desnutridos, o que não deve faltar para a recuperação?

Primeiro é necessário saber a causa da desnutrição, se é por dietas inadequadas, anorexia ou má absorção intestinal. Se o animal sofre de caquexia (perda muscular), é preciso que sua dieta mantenha um balanço de nitrogênio positivo, através de fontes de proteínas completas e de alta biodisponibilidade para suprir as necessidades normais do organismo e construir músculos. Se o animal está inapetente e seletivo para comer, é importante que ele receba um alimento nutritivo e altamente palatável. Infelizmente, ainda observo muitos casos de caquexia uma vez que o animal rejeita o alimento terapêutico prescrito e um substituto adequado não é oferecido. Outra forma de desnutrição é observada em animais obesos, uma realidade muito frequente entre pets que não recebem um alimento adequado para a seu gasto calórico. Para estes animais é necessário dietas hipocalóricas mas que sejam balanceadas, dêem saciedade e permitam a perda de massa gorda de forma progressiva, associada à atividades físicas de baixo impacto.

Qual é a maior dificuldade que você encontra quanto a orientar o proprietário?

Em geral os proprietários que me procuram já têm conhecimento dos benefícios da alimentação natural, então esta parte já está resolvida.

Um temor comum dos veterinários, e meu também no início, era de que se os proprietários muitas vezes erravam na administração de medicamentos e na quantidade de ração, nunca iriam conseguir acertar a preparação da alimentação com diversos ingredientes e quantidades, mas felizmente tenho tido bons resultados com uma explicação detalhada e uma apostila de apoio.

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Os maiores problemas que venho enfrentando então são: a relutância no uso da balança de alimentos, pois medidas de xícaras e colheres costumam ser imprecisas o que torna os ajustes mais difíceis de fazer, a freqüência insuficiente das notícias do animal para fazer ajustes e acelerar o resultado do tratamento, vícios de cozinha e o medo que as pessoas têm de errar.temor comum dos veterinários, e meu também no início, era de que se os proprietários muitas vezes erravam na administração de medicamentos e na quantidade de ração, nunca iriam conseguir acertar a preparação da alimentação com diversos ingredientes e quantidades, mas felizmente tenho tido bons resultados com uma explicação detalhada e uma apostila de apoio.

O que é mais prejudicial? Corantes, mau armazenamento ou matéria prima de baixa qualidade na fabricação?

São todos altamente prejudiciais para a saúde.  Uma matéria prima de má qualidade não irá nutrir adequadamente, a má conservação implica na oxidação de nutrientes importantes e abre caminho à intoxicações fúngicas e bacterianas. Corantes são dispensáveis, uma vez que são utilizados unicamente com fim de atrair o consumidor (humano, não o animal), não tem valia nutricional e, inclusive, podem predispor a alergias, intolerâncias e outros males.

A rotina do animal deve se adaptar a alimentação ou o alimento que deverá ser de acordo com a rotina?

É preciso definir uma rotina alimentar e adequar os hábitos do animal a essa rotina. Gatos, por exemplo,  se beneficiam especialmente desta rotina uma vez que uma vez que assim é possível controlar a quantidade e freqüência de suas refeições e as alterações poderão ser observadas antes de apresentarem sinais de agravamento (o que é impossível com um pote de comida disponível todo o dia especialmente com múltiplos animais).

Animais para lazer, trabalho e competições, quais desses tem mais chances de desenvolver doenças devido a má alimentação?

Quanto maior o esforço físico que o animal emprega em seu dia a dia, maiores suas necessidades nutricionais e portanto, maiores os prejuízos de uma alimentação de má qualidade, independente dos benefícios da atividade física em si para sua saúde.

Alimentos secos, úmidos ou caseiros?

Caseiros, depois ração úmida e por último ração seca.

Animais para abate, a carne é influenciada quando a alimentação é industrial ou natural?

Sim, de acordo com o site da Associação Brasileira das Industriais Exportadoras de Carne, a carne bovina proveniente de animais criados soltos e comendo pasto, produz uma carne mais nutritiva do que aqueles que são alimentados com ração. Alguns dados fornecidos mostram algumas diferenças como concentrações elevadas de ácido linoléico, e precursores de antioxidantes como a vitamina A e E. Ela também mantém uma proporção mais desejável entre os ácidos graxos ômega-3 e 6, lembrando que os ácidos graxos ômega-6 possuem efeitos pro-trombóticos, pro-inflamatórios e pro-constritivos, o ômega 3, no entanto, age na direção inversa, posto que ambos sejam necessários no equilíbrio de um organismo são. Estes benefícios são observados também no leite de vacas, ovos e na carnes de frango de corte.

Como é a especialização em nutrição?.

Algumas universidades oferecem residências em Nutrição Clínica (Nutrologia) e intensiva (enteral e parenteral), alem disso é possível fazer cursos de pós graduação em Nutrição, no entanto, aqui no Brasil, os cursos são direcionados à quem quer trabalhar na industria. Existem também vários projetos de mestrado e doutorado, alem de oportunidades de realização de cursos em Dietoterapia e Nutrição Clínica. O importante é estudar bastante e se manter atualizado pois a nutrição é uma ciência dinâmica e a literatura em nutrição fresca para pets é escassa.

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Em que tipo de animal o senhor (a) é especializado?

No momento, em cães e gatos.

O que a área da nutrição pode oferecer a mais a um profissional de medicina veterinária?

Conhecimento adequado para prescrever um alimento correto, orientar de forma simples e objetiva todos os aspectos nutricionais referentes às necessidades individuais do paciente e sugerir substitutos adequados para ocasiões em que o animal rejeita o alimento, ou possui alergias e intolerâncias.

Quais os temas mais importantes sobre nutrição?

Anatomia e fisiologia do sistema gastrointestinal da espécie, as necessidades nutricionais, ingredientes utilizados na formulação de dietas, as diferentes opções de dietas, problemas que respondem bem à terapia nutricional, hábitos, erros e mitos relacionados a nutrição.

Quais congressos ou palestras o senhor costuma frequentar?

Congressos e simpósios de clínica de pequenos animais costumam abordar alguns tópicos dentro da nutrição clínica.

O que o acompanhamento de um nutricionista pode favorecer a vida do animal?

SEGURANCA – não são raros os casos de donos que suplementam a ração do animal ou oferecem uma dieta caseira sem critério. O acompanhamento nutricional possibilita o dono oferecer o alimento que prefere mas de forma correta e segura para o animal.

INDIVIDUALIZAÇÃO – formulação e acompanhamento que leva em consideração todas as condições clínicas que o animal apresenta, alergias, intolerâncias, assim como as suas preferências e a possibilidade financeira do seu responsável.

Existem diferentes tipos de rações no mercado, há alguma com que o cão, gato, não se desenvolva bem?

Rações vendidas à granel costumam ser mal conservadas, expostas ao sol, umidade e contaminação, o que alem de empobrecer nutricionalmente a ração, pode gerar intoxicações graves. Rações muito coloridas, ou com ingredientes e aditivos químicos inadequados para o consumo de cães e gatos também devem ser evitadas.

Como saber se o animal está bem nutrido?

Através do exame físico é possível analisar o seu escore corporal, o percentual de massa magra e gorda, a qualidade do seu pelo e da sua pele, sua disposição e sua vitalidade. Exames laboratoriais podem identificar pH urinário e alterações na função dos órgãos.

cuca e lola

Espero que tenham gostado!

Um super abraço e muito obrigada por visitar!

Sonali Rebelo
Médica Veterinária – CRMV RJ 10952
Nutrição Clínica

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